Decidi que, para não provocar ciúmes entre as possíveis personagens que vão figurar por esse blog, a primeira história a ser retratada é a de um garoto, acho que com seus 16 anos. Talvez tenha até mais. Porém, como nunca lhe perguntei a idade e nunca mais o encontrei, corro o sério risco de errar feio. De qualquer forma, o que interessa é contar o pouco do que vi e conheci do Mineirinho. Aliás, percebo agora que nem o nome dele eu sei.
Mineirinho costumava frequentar as ruas do chamado Centro Velho. As ocasiões em que cruzei com ele estão relacionadas às minhas idas à antiga sede do Sindicato. A saber, Sindicato é um grupo de fiéis amigos, sobre os quais pretendo falar em outra oportunidade, que se reúnem, via de regra, na região central.
Pois bem, a tal sede era um bar, mais para boteco, que ficava, ou melhor, fica dentro de um dos corredores-galerias entre as ruas Barão de Itapetininga e 24 de Maio. Costumávamos ficar nos abastecendo com copos e mais copos de cerveja, aproveitando para relaxar após mais um árduo (às vezes nem tanto assim) dia de trabalho. E era lá que encontrávamos o Mineirinho. Por sinal, olha só que coisa, não sei nem ao menos explicar qual a razão do seu apelido...
Franzino, negro e de fala mansa. Sempre com um sorriso. Era um rapaz bem tranquilo. Morador de rua. Vinha sozinho. Costumava andar com um caderno, se não me engano, uma brochura, em que escrevia, acreditem, os locais por onde passava. Ou melhor, as viagens, a pé, que fazia. E, pelo que me lembro – e aí, me perdoem, mas o teor etílico sempre era constante nas reuniões do Sindicato; daí a falta de detalhes –, eram quase sempre longas caminhadas, incluindo idas a outros estados.
Mineirinho não fumava. Sequer pedia dinheiro. Ele gostava de mostrar o caderno, com as anotações das viagens. Lembro-me de uma ocasião em que um dos meus amigos ofereceu-se para lhe pagar um lanche. Ele não quis. Disse que já havia comido e que, por isso, não havia necessidade, pois isso seria jogar dinheiro fora. Ou seja, ele tinha uma ética toda particular: a de nunca pedir as coisas sem que houvesse necessidade. E mesmo quando tinha, éramos nós quem lhe oferecíamos. Caso contrário, ele não falava nada. Nem que estava faminto. Recordo de outra ocasião em que um dos balconistas do bar deu um tênis para o garoto. Que, é claro, ficou contente com o presente. Usado ou não, ele guardou dentro de uma sacola plástica o par de tênis. Que, acho, deve ter sido usado em uma dessas andanças dele.
Desde que o Sindicato mudou de sede, não vi mais o Mineirinho. Espero que ele esteja bem. Aliás, prometo para mim mesmo que, se o reencontrar, vou querer saber mais da sua história e, claro, das histórias das suas viagens e das que ele deve ter visto ao longo de suas jornadas. Ah, sim, e tomar nota do verdadeiro nome dele.
